A totalidade do fragmento
Nessa época despida de nuances, a sonoridade crua, suja e partida do rock’n’roll é um completo estranhamento
Dois dedos comprimindo duas cordas no braço de uma guitarra. Dos amplificadores, explode um som repleto de microfonia e distorção. É incompreensível que dois dedos sobre duas cordas produzam uma parede sonora de potência ensurdecedora. Mais incompreensível ainda é ver que multidões sigam sequências de dois em dois dedos passeando no braço de guitarras e aclamem esse som como hinos de fogo e energia.
O rock reinou absoluto como a música mais influente e catalisadora de comportamentos na segunda metade do século XX. Criou um panteão de artistas excepcionais, que souberam quebrar as pedras dos panteões antigos, em uma infinidade de variações mais elaboradas, sinfônicas, incorporando toda sorte de outros instrumentos, ritmos, ideias e temas, mas que nunca, jamais, renunciaram à fúria de dois dedos atacando duas cordas em múltiplos acordes para cuspir uma sequência feroz de sons que parecem brocas nas nossas mentes entorpecidas.



